Levantando um filho adolescente no mundo de hoje

AUTO AUTO AJUDA

2019.08.07 04:23 lucius1309 AUTO AUTO AJUDA


Antes da leitura, segue abaixo a trilha sonora utilizada para escrevê-lo.
Frank Sinatra - To Be Perfectly Frank
https://www.youtube.com/watch?v=LiBT5qYXgA0
Agora sim, vamos ao texto.

Meus textos atualmente perderam a força. Eu perdi a força também. Acho que isso não é demérito nenhum. A escrita tá ficando de uma certa forma, covarde. Não existe mais sonho algum, além de me manter vivo e pagar as contas.
Talvez essa seja a maior covardia de todas, não é mesmo?
Sei lá.
Só sei que essas linhas que escrevo hoje servem mais de auto ajuda do que oposição às massas. Sempre que ouço Sinatra eu lembro de tempos mais difíceis. Tempos em que ficava trancado dentro de casa, bebendo doses cavalares de vodka ou cachaça pura, ouvindo Sinatra e me agarrando àquilo tudo. Era tudo o que eu tinha: uma garrafa e Sinatra nos meus ouvidos. Não que meus "amigos" não quisessem me ver, na maioria das vezes eles pediam a minha presença, mas, por nunca ir, eles foram aos poucos esquecendo da minha existência, e eu fui ficando cada vez mais sozinho. Não acho que seja o mais recomendável, mas foi o que achei mais correto a fazer. Me abracei ao álcool e à Sinatra, e suportava muito bem.
Era tudo o que eu tinha.
Hoje, dependendo da situação, ainda é tudo o que eu tenho. Com exceção da garrafa, já mais de dois anos e meio que sosseguei definitivamente. E por enquanto, tô bem assim.
A gente se agarra nos nossos pequenos mundos.
Hoje vi um morador de rua, puxando um cachorro encoleirado por uma corda suja e puxando também um carrinho de feira, agarrado àquilo como se fosse tudo o que tinha. E realmente, aquilo é tudo o que ele tem. Se ele descuidar, pode perder pelo caminho. Barba por fazer e nenhuma garrafa de cachaça na mão. A vida daquele homem está definitivamente desgraçada o bastante. Mas ele segue firme e forte.
Enquanto isso, eu na minha covardia penso pelo menos umas três vezes por dia em jogar tudo pro alto, mas isso só fica no pensamento por enquanto, acabo desistindo quando chego ao ponto de realmente ter que fazer alguma coisa, e me contento com gritar com as pessoas que julgo necessário fazer isso, colocar o pau na mesa e mostrar quem manda nessa porra, afinal de contas, hoje eu sou chefe, empresário, cacique e quase um rei da cocada branca e preta. Se eu não me impor, eles sentirão falta de uma liderança. Eu tenho que ser essa liderança, por mais que eu não sei liderar quase nada na minha vida.
A goteira da minha pia não para de aumentar, tem um buraco no meu telhado que molha a máquina de lavar, sujeira por todos os cantos, portão enferrujando e estofado do carro velho aos poucos se degradando. Destruições que o tempo nunca deixará de fazer. Tudo vai envelhecer e desmoronar. É questão de tempo. Anos, meses ou até semanas.
Nada vai restar. Quando a gente menos perceber, trinta anos terão se passado e vamos olhar pra trás buscando respostas que só vamos conseguir se olharmos pra frente.
"Onde foram passar todos esses anos?"
Ouvir Sinatra e encher a cara não pode ser considerado um passatempo, ao menos não um passatempo saudável, mas foi basicamente nisso que investi uns anos da minha vida. Não me arrependo, mas me pergunto como tudo passou tão rápido: num dia eu estava no buraco e agora me vejo na possibilidade de morar perto da praia e encher o rabo de dinheiro fazendo uma coisa que pra mim é tão fácil quanto acariciar o pescoço de um gato.
A maioria das pessoas vivendo vidinhas patéticas e conformadas com isso, enquanto eu fico realmente emputecido quando repito a mesma refeição todos os dias. Todos tão cheios de problemas reais enquanto eu fico me prendendo em crises existenciais de um adolescente que não amadureceu o bastante. Contas pagas e viagens pro Nordeste, e sempre na necessidade de ter mais, de ser responsável por algo grandioso, GRANDIOSO, mais grandioso do que já é. Um sentimento megalomaniaco por potência, uma busca por um controle absoluto que talvez nunca vá existir. Uma vontade de satisfazer vontades que nem eu sei ao certo qual são.
A gente precisa ser responsável pela própria culpa. Eu aceito a minha culpa por ser quem eu sou, por estar absolutamente fudido emocionalmente, por todas as pessoas a quem fiz mal (e que não foram poucas) e por todas as coisas fudidas que fiz (que também não foram poucas).
Não existe nada pior do que carregar rancor pro túmulo. Mágoas devem ser esvaziadas o quanto antes. Num mundo de gente ingrata, agradecer por estar vivo parece ser utopia, mas eu ainda acredito que tudo possa ser diferente.
Afinal, eu ainda estou vivo e respirando, me levantando todos os dias de manhã e fazendo alguma coisa pra tornar a minha vida e a dos que estão ao meu redor mais suportável.
Augusto Cury que se cuide, meu próximo livro vai ser de auto ajuda pelo visto.
Brincadeira.
Eu não tenho capacidade de ajudar ninguém. Sigo a muito custo tentando me salvar de mim mesmo, e na maioria dos dias não tenho sucesso. Mas tá aí o questionamento: o que é sucesso? Casa na praia, carro do ano e mulher gostosa? Paz de espírito e contas pagas com viagens aos fins de semana? Filhos e um casamento estável? Eu não sei. Não fico tentando saber. Só fico feliz de ter a cada dia uma nova oportunidade de fazer melhor do que fiz ontem. Por que o objetivo tem que ser sempre melhorar.
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